Profissional pode se beneficiar da briga por resultados com os colegas, desde que o trabalho seja focado nas suas habilidades
Daniele Mendonça é gerente de projetos de gestão de pessoas, processos sucessórios e diagnósticos de áreas e empresas na Across, uma das maiores consultorias de Recursos Humanos do Brasil. Sua carreira é norteada para projetos de assessment, coaching e Desenvolvimento de Equipes, e ela atua diretamente com empresas como Leroy Merlin, Yhirlpool, Fiat, C&A e Natura. Formada em psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em psicodrama pela PUC, é especializada em psicoterapia breve. Com experiência na área de RH desde 1997, afirma que a competição entre colaboradores pode ser saudável tanto para as pessoas e as organizações. Mas desde que os profissionais foquem a carreira nas suas habilidades e as empresas, na avaliação global de resultados.
Correio do Povo - Como você vê a competição?
Daniele Mendonça - Em geral, a competição é vista de maneira ruim. É como se a pessoa tivesse receio de, se não for o ganhador principal, vai ser perdedor. Vai haver momentos em que o profissional vai ser muito bom. Outros não. Uma pesquisa da Global Novations, que é parceira da Across, diz que cada indivíduo tem duas habilidades principais. Isso vai ser o norteador da vida profissional. E você vai ser muito feliz se conseguir utilizá-las naquilo que te apaixona.
CP - A que estão ligadas as habilidades?
Daniele - Estão ligadas à visão do todo. Eu posso ser um ganhador no que tem enfoque direto na minha habilidade. Se você quer se desenvolver, vá desenvolver seu ponto mais forte. Não é pelo ponto mais fraco que você vai fazer isso. Se o fizer, vai ter um sentimento de frustração, de derrota, talvez nunca vá conseguir ser bom naquilo que não é o seu forte. Mas isso acontece porque você não está focando na sua habilidade. É focando nas habilidades que se deve competir. Caso contrário, você vai ser um profissional mediano.
CP - Como as empresas devem tratar a competição?
Daniele - Basicamente, avaliando o desempenho dos profissionais através de três perspectivas: quantitativa, com relação ao processo em si e ao envolvimento. Além disso, é importante estabelecer pontos de controle sob esses aspectos, sobre como as pessoas se comportam, e não focar só na meta. Esses pontos devem ser transmitidos com clareza para os colaboradores, para que eles possam entender o processo como um todo. Por isso, os gestores devem ter uma ligação com a cultura das empresas, que, por sua vez, devem por atenção em como o processo seletivo é feito e como os funcionários estão sendo avaliados. A partir do momento em que se vai mensurar o desempenho, os gestores devem avaliá-lo através do resultado quantitativo, da qualidade do trabalho, do processo de busca dos resultados. Deve avaliar o grau de dedicação e como o processo aconteceu. Não adianta só alcançar resultados para ser reconhecido. É a mesma coisa que um jogador de futebol fizesse seis gols e, para isso, tenha dado canelada, chutado, batido nos jogadores, brigado com o juiz. Um ambiente competitivo é um ambiente respeitoso, no qual se tem prazer em ter embates no campo das ideias.
CP - O que o modelo de competição atual leva em conta?
Daniele - Deve levar em conta a diversidade de talentos, de pessoas, de habilidades, de pensamento, e a sustentabilidade em busca de um clima respeitoso. Este é o cenário de reflexão global atualmente. E as pessoas vão ter que aprender a canalizar a competição para a agressividade comercial, para a argumentação interna.
CP - E como perceber se esses talentos estão sendo respeitados?
Daniele - Por exemplo, eu posso ser uma pessoa altamente intuitiva, mas que trabalho em uma empresa muito rígida. Vou precisar lidar com isso de uma maneira bacana. Mas, para isso, preciso ter clareza das minhas habilidades para que não me sinta vitimizado no dia a dia. Um bom profissional precisa conquistar espaço, causar influência. É preciso ter clareza das habilidades para saber se a empresa onde estou é o melhor lugar para mim. Se não, a pessoa fica numa utopia. Não adianta ficar numa postura ingênua. Se a pessoa não se adequou à empresa, a competição vai incomodar.
CP - Como fazer essa autoanálise?
Daniele - Isso tem a ver com maturação. Se a pessoa não está lidando com a competição de um jeito adequado, deve pensar como não se sentir afrontado. Se a competição virar tortura, deve pensar se está a fim de ficar na tortura. A reflexão é extremamente válida porque em qualquer lugar há competição. É preciso enfrentar as próprias inseguranças e os medos. Isso instiga o maior desenvolvimento, é uma provocação positiva.
Fonte: http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=116&Numero=241&Caderno=8&Noticia=298757

